Como resolver o X do problema da leitura?

Artigo de Tarcísio Zandonade
Professor da UnB, aposentado

O Correio Braziliense publica regularmente oportunas matérias sobre a mais importante atividade na aprendizagem: a leitura. O tema é quase sempre analisado sob a perspectiva da falência do ensino da leitura, ou seja, conclui-se que o leitor brasileiro lê, mas não entende. Tony Buzan, bem-sucedido autor inglês, lança pela BBC, desde 1974, periódicas edições ou reimpressões do livro Use your head (Use a cabeça). O quarto capítulo da obra trata da leitura, que para Buzan é o inter-relacionamento total do indivíduo com a informação simbólica.

Esse inter-relacionamento desenvolve-se em sete passos.

São eles os seguintes: 1. Reconhecimento — o aprendiz de leitor aprende os símbolos das letras e dos números; 2. Assimilação — o processo físico, pelo qual a luz é refletida a partir da palavra e recebida pelo olho do leitor e depois transmitida ao seu cérebro pelo nervo ótico; 3. Compreensão — o leitor faz uma ligação das informações que está lendo com as outras partes do mesmo texto; 4. Entendimento — o leitor analisa, critica, avalia, seleciona e rejeita o que está lendo e integra a informação que lê com todo o seu conhecimento anterior, fazendo as conexões entre os conceitos aprendidos. Assim, quanto mais livros o leitor lê, mais entenderá o próximo livro; 5. Retenção — o leitor armazena na memória o resultado de todos os passos anteriores, criando uma verdadeira biblioteca na sua cabeça; 6. Revocação — o leitor “chama de volta”, recupera ou lembra o que leu, no momento em precisa da informação armazenada na memória; 7. Comunicação — o nível mais profundo, que é atingido somente quando se consegue transmitir aquilo que foi lido.

Mas como se dá o processo ótico da assimilação? Ao ler um texto, parece que os olhos se movimentam suavemente, do início até o fim de uma linha, e depois voltam ao início da linha seguinte, até o fim do texto. Esse processo, porém, é muito mais rico do que parece: os olhos movem-se em saltos rápidos (contrações) e rápidas fixações (estabilizações) pelas linhas do texto. A leitura acontece somente durante as fixações, que ocorrem de três a quatro vezes por segundo. Os olhos precisam dessa fixação ou parada para “fotografar” uma palavra ou uma sequência de palavras. A sensação de continuidade na leitura, portanto, é apenas uma ilusão. Esse processo foi descoberto somente no século 19, pelo oftalmologista francês Emil Javal. Conhecendo esse maravilhoso processo neuropsicológico, quais lições podem ser tiradas? Antes de tudo, o leitor deverá perceber que ler é uma técnica e uma arte. Além disso, deverá saber que mais de 80% do que se aprende é resultado da leitura.

Conclui-se, então, que os pedagogos e os gestores educacionais, incluindo a família, devem conhecer a grande potencialidade da criança para aprender a ler. Com certeza, conhecendo a maravilha do processo de leitura, a criança será motivada a gostar da ler. Algumas lições podem ser tiradas dessas reflexões: a. A criança aprende a ler com muita facilidade, motivação e alegria, e com relativa rapidez. Os educadores, de modo geral, conseguem ensinar a ler de forma eficiente. Entretanto, se a criança não tiver o que ler, chegará somente ao nível 2 da leitura. Virá a ser mais um brasileiro que lê, mas não entende; b. Todas as escolas devem ter uma boa biblioteca, pois uma escola sem biblioteca não ensina a ler, apenas engana. As crianças cujos pais leem em casa lerão mais e melhor. Mas a responsabilidade de providenciar os livros para a leitura é da biblioteca escolar. Além disso, os jovens gostam de livros atualizados, bonitos, limpos e bem conservados. Não é com livros descartados de outras coleções que se vai motivar a leitura; c. Biblioteca escolar sem bibliotecário para organizá-la e administrá-la torna-se logo um depósito de papel velho. Há escolas públicas no Distrito Federal que, por economia, fecharam as bibliotecas e abriram salas de leitura, para não contratar bibliotecários. Para que uma biblioteca escolar funcione bem, é preciso também que os bibliotecários escolares sejam remunerados, pelo menos, no mesmo nível dos professores, uma vez que o bibliotecário é o melhor colaborador do professor, tanto na educação dos alunos quanto na atualização dos próprios professores.

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2 respostas para Como resolver o X do problema da leitura?

  1. Tarcisio Zandonade disse:

    Caro Quemel. Muito obrigado pela divulgação desta matéria que publiquei no Correio Braziliense tempos atrás. Devo agradecer também ao comentário do Bruno Arcanjo que captou o importante princípio psicológico do crescimento exponencial da aprendizagem através da sucessiva leitura de novos livros. (O mesmo princípio se revela também na sucessiva aprendizagem de línguas!). Desde algum tempo atrás, vinha discutindo o tema da leitura, motivada pela descoberta da ‘magia da leitura’, pois nunca acreditei na ‘motivação’ por um convite genérico da leitura, sem explicação desta habilidade que o ser humano conquistou desde tempos imemoriais. Agora, tenho o prazer que informar que a editora Briquet de Lemos / Livros acaba de publicar um opúsculo eletrônico de minha autoria, intitulado ‘Ler se aprende lendo’. Este livrinho pode ser adquirido por R$ 15,00 no site do editor: . Estou certo de que os jovens que desejam aperfeiçoar a técnica e a arte da leitura encontrarão nestas páginas alguns argumentos convincentes.

  2. Bruno Arcanjo disse:

    Excelente post. Parabéns Quemel. Realmente quanto mais lemos, temos um enedimento melhor do próximo livro.

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