O paradoxo do bom samaritano

Revista Mente & Cérebro (edição especial – o desafio dos relacionamentos) por Ernst Fehr e Suzann-Viola Renninger.

Demonstrar generosidade é importante no processo evolutivo. Em geral, o comportamento altruísta traz ganhos a médio prazo para quem o pratica.

Assim como muitos animais, em geral seres humanos se empenham em ajudar membros de sua família ou grupo. Apenas as pessoas, no entanto, estendem o altruísmo para além do núcleo familiar, frequentemente auxiliando estranhos sem receber em troca nenhum ganho pessoal óbvio. Quer vivamos em grupos grandes, dentro da rede global da nova economia, quer estejamos na mais isolada reserva ianomâmi na fronteira com a Venezuela, mesmo na ausência de laços familiares a cooperação humana espalha-se entre diferentes culturas.

Quais são as bases desse comportamento generoso? Será que cada um de nós possui um samaritano interior abnegado e voltado para a comunidade, como alguns filósofos já propuseram? Ou — como biólogos sociais sugerem — as ações aparentemente feitas em benefício alheio são na realidade motivadas por cálculos econômicos disfarçados e pelo egoísmo, de olho no que pode acontecer a longo prazo?

Algumas das questões fundamentais sobre nosso início evolutivo, relações sociais e origens da sociedade estão centradas no tema do altruísmo e egoísmo. Experiências recentes mostram que as atuais teorias evolucionistas baseadas na genética não conseguem explicar padrões importantes do altruísmo humano, apontando para a importância das teorias tanto da evolução cultural quanto dos genes.

A ideia de que o egoísmo possa contribuir para a ascensão e manutenção de uma sociedade cooperativa é um tópico antigo da filosofia política. No início do século XVIII no artigo “A fábula das abelhas”, o médico e filósofo Bernard Mandeville, que nasceu na Holanda e se estabeleceu na Inglaterra, defendeu que o “vício privado” — e não a “virtude” — estava na raiz de todo “benefício público”. Moralidade e bem-estar público, argumentou, são baseados puramente no egoísmo individual. Além disso, se cada membro da sociedade defendesse seus próprios interesses, obteríamos o melhor resultado possível. Mandeville concluiu que o governo entraria em colapso caso o egoísmo deixasse de motivar nossas ações.

Numa época em que a autoridade eclesiástica impunha valores religiosos, os filósofos rejeitaram ferozmente as ideias de Mandeville. Mas noções similares persistiram nos três séculos seguintes. Charles Darwin, em À origem das Espécies, de 1859, dizia que qualquer organismo não completamente engajado na luta por comida, sexo e território tem menos chances de transmitir suas características à prole. Em 1874, o naturalista inglês escreveu que uma tribo na qual houvesse colaboração “venceria a maioria das outras” e isso seria seleção natural”. Economistas do século XIX e cientistas sociais desenvolveram a teoria do Homo economicus, segundo a qual o Homo sapiens trabalha exclusivamente para maximizar seu proveito.

Em 1976,o biólogo evolucionário britânico Richard Dawkins reabriu a discussão pública de modo dramático com seu best-seller O gene egoista. Ele argumenta que o material genético molecular usa seu hospedeiro — seja ele ameba, hipopótamo ou pessoa — como um “veículo” para se propagar. “Somos máquinas de sobrevivência — veículos robôs programados cegamente para preservar as moléculas egoístas conhecidas como genes”, escreveu.

Além da Natureza
Seguindo esses preceitos, o altruísmo pode ser comprendido como uma forma de egoísmo disfarçado. De acordo com a teoria sociobiológica do altruísmo recíproco, as pessoas tendem a ajudar mais umas às outras quando esperam contato frequente no futuro. É como se pensassem: “Coçarei suas costas se você coçar as minhas”. Ainda que poucos admitam, o doador toma por certo que sua generosidade terá retorno mais adiante, A teoria da reputação, que explica outra forma de altruísmo que resulta em ganho pessoal, provém da suposição de que é geralmente vantajoso estabelecer um conceito de benevolência e imparcialidade por meio de boas ações bem planejadas. O resultado deve melhorar a imagem da pessoa e seu potencial para lucros a longo prazo.

Mas podemos explicar um comportamento afetuoso e abnegado com um modelo que englobe tudo? Afinal, não há inúmeros exemplo de quem ajuda o próximo — mesmo que seja para sua desvantagem pessoal, como no caso de voluntários ou profissionais (como bombeiros), que arriscam a vida para ajudar pessoas completamente desconhecidas depois de um terremoto ou outro desastre? Tais sacrifícios não seguem as regras da biologia evolucionária. Se a família nuclear não obtém proveito e se a ajuda recíproca ou o auxílio com objetivo de melhora da própria reputação não prometem vantagens futuras, então a abnegação não traz ganho algum. Pior: custa saúde ou dinheiro. Por esa lógica, não deveria haver bons samaritanos. Apesar disso, eles claramente existem.

Os humanos parecem ser um caso especial entre os animais. As experiências vêm de um ramo relativamente novo de pesquisa, a economia experimental. A disciplina usa métodos como jogos de “punição”, mostrando que muitas pessoas, mesmo quando enfrentam altos riscos monetários, estão prontas a punir outras a fim de evitar resultados injustos ou para repreender um comportamento desonesto.

Nosso grupo desenvolveu uma dessas experiências com 240 alunos da Universidade de Zurique, Suíça. Cada um deles sentou-se diante de um terminal de computador em uma espécie de compartimento isolado visual e acusticamente. Conexões de rede ligavam grupos de quatro, que jogavam juntos. Nenhum dos jogadores sabia com quem interagia porque os parceiros eram identificados apenas por números na tela do computador. A cada seis rodadas, os cerca de 60 grupos eram reorganizados ao acaso.

No começo das rodadas, todos os participantes recebiam uma soma virtual inicial equivalente a US$ 20, no final poderiam trocar a moeda virtual por dinheiro, portanto eram motivados a considerar cuidadosamente como jogavam. Os integrantes de cada quarteto tinham a opção de escolher investir tudo ou parte do capital em um projeto comum que consistia em algum bem público (instituição social ou serviço com o qual todos lucram, mesmo que alguém não contribua para isso). Mas durante a experiência, não contamos aos participantes o que era exatamente um bem público, eles deveriam inferir isso pelos resultados.

Depois de cada rodada, o pesquisador-chefe aumentava a soma total de cada grupo em 60% e distribuía o lucro igualmente entre os quatro integrantes, independentemente da quantidade de cada contribuição individual. No melhor cenário, os quatro jogadores investiam todo o capital inicial, e então cada um recebia US$ 32 (US$ 12 de lucro mais o que tinha no começo da rodada). Se contribuíssem no total com apenas US$ 40 para o bem público, a quantidade era aumentda para US$ 64, e cada participante ficava com US$ 16. Nesse caso, uma pessoa que não tivesse feito nenhuma contribuição, o chamado “caroneiro”, recebia os mesmos US$ 16 que todos os outros. Um jogador que tivesse investido US$ 10 ganhava US$ 6. E alguém que tivesse investido toda sua soma de US$ 20 acabava levando a pior, perdendo US$ 4.

Se pensarmos racionalmente, seria insensato investir, ainda que fosse 1 centavo, nessas condições, porque cada dólar investido em bens públicos traria de volta meros 40 centavos de dólar, com prejuízo de 60 centavos. A um jogador que não tivesse investido nada estavam garantidos ao menos os US$ 20 iniciais, além de uma parte da renda (supondo, é claro, que os outros estivessem dispostos a cooperar). O dilema para cada participante era que, se ninguém mais investisse no projeto, ele levaria para casa apenas seu capital inicial.

Até esse ponto, a configuração é similar às experiências de bens públicos conduzidas por economistas por quase 20 anos. Mas nosso teste foi além em um passo crucial. Depois que cada um dos quatro participantes decidia quanto investir, dizíamos a eles o quanto os outros três jogadores haviam investido e dávamos a opção de punir os caroneiros reduzindo seu lucro tanto quanto considerassem justo. Mas aplicar uma multa de US$ 3 custava US$ 1 ao punidor, um castigo de US$ 6 custava-lhe US$ 2 e assim por diante.

Os resultados surpreenderam: mais de 80% dos participantes puniram outro jogador pelo menos uma vez durante as seis rodadas, mesmo que isso tivesse um custo para si próprios e que não obtivessem nenhuma vantagem imediata. Mais de 30% distribuíram punições a cada rodada. Os caroneiros foram os que mais sofreram. Quanto menos contribuíam para o projeto comum mais penalidades recebiam. E os participantes que investiam mais que a média no bem comum eram muito mais propensos a castigar os outros.

Má adaptação.
Para entender melhor os efeitos de tais sanções, fizemos uma variação da experiência. O procedimento era idêntico, com a exceção de que não demos provisões para as punições. Quase 95% dos participantes investiram consideravelmente menos que o observado no jogo anterior. Na verdade, na última rodada, 60% não deram nenhuma contribuição ao bem comum, comparados aos 3/4 dos jogadores que colocaram US$ 15 ou mais quando a punição estava em jogo.

Como podemos explicar esses resultados? Está claro que, na primeira versão da experiência, a ameaça de punição não foi a única razão para o surpreendente alto nível de cooperação. A penalidade real também foi importante: os caroneiros punidos investiram uma média de US$ 1,50 a mais no projeto público na rodada seguinte.
Portanto, a repreensão pelo comportamento injusto fez aumentar a cooperação nas rodadas subsequentes.

Os únicos jogadores que não obtiveram nenhuma vantagem foram os que distribuíram a sanção. Eles não ganharam nada por corrigir o comportamento dos caroneiros, porque não ficavam no mesmo quarteto na rodada seguinte. A punição beneficiou outras pessoas, jogadores desconhecidos. Em outras palavras, os que tornaram a cooperação possível ameaçando com sanções agiram de modo altruístico e aparentemente sem considerar a vantagem pessoal. Sociobiólogos chamam esse comportamento de altruísmo forte ou verdadeiro para diferenciá-lo do altruísmo fraco ou falso do nepotismo ou de ações que antecipam um retorno no futuro. O altruísta verdadeiro é aquele que faz o bem por motivos que não sejam o ganho estratégico.

Teóricos da evolução já afirmaram que essa característica forte é sinal de má adaptação, um tipo de descuido evolutivo. Em sua essência, esse argumento diz que um comportamento altruísta que pode ter sido apropriado e bem-sucedido em determinada época se tornou desvantajoso em diferentes circunstâncias. Os antepassados do Homo sapiens viviam em grupos pequenos, em geral isolados, e eram extremamente dependentes uns dos outros. Membros não cooperativos do grupo, que se comportavam desonestamente, seriam excluídos de atividades grupais recompensadoras ou mesmo punidos. Nesse caso, pegar uma “carona” não valia a pena. Encontros com estranhos, comuns nas sociedades modernas, eram raros. Como resultado, havia pouca pressão evolutiva que diferenciasse essas duas situações sociais. De acordo com o argumento da má adaptação, a pessoa que vive no mundo atual que demonstra altruísmo verdadeiro em uma experiência pode na verdade ser incapaz de fazer essa diferenciação crucial.

Filosofando sobre a natureza humana.
Por que as pessoas são altruístas? A questão tem sido um tópico da filosofia desde os primórdios. O filósofo grego Aristóteles, por exemplo, acreditava que todos os humanos eram intrinsecamente bons, mas esse potencial poderia ser concretizado apenas dentro da sociedade. Portanto, ele chamava nossa espécie de zoon politikon, o animal político.

O cristianismo introduziu uma visão dos humanos como mais imperfeitos. Apesar de terem sido criados à imagem de Deus, os homens seriam marcados pelo fracasso do pecado. Apenas a fé os redimiria perante Deus — mas não os faria bons.

O filósofo inglês do século XVII Thomas Hobbes considerava o homem uma espécie de animal selvagem que constantemente oprimia seus semelhantes. Nosso instinto de autopreservação se expressaria pela insaciável avidez de poder, que inevitavelmente resultaria em uma batalha de todos contra todos, não fosse a presença do rei, que tornaria possível a coesão social dentro de um Estado.

Os iluministas do século XVIII tinham visão mais promissora, acreditando que a bondade e o altruísmo fizessem parte da natureza humana. Em seu romance Emílio, o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau propôs que a chave da felicidade para todos era o desenvolvimento livre da personalidade da criança. Ao permitirem o desabrochar das tendências naturalmente boas, os adultos abririam caminho para uma sociedade harmoniosa. O filósofo inglês Anthony Ashley Cooper, terceiro conde de Shaftesbury, disse que nosso entusiasmo inato pela bondade, pela verdade e pelo belo nos tornava tão virtuosos e honestos que seria possivel uma ordem social na qual, idealmente, poderíamos dispensar as sanções que garantem o bom comportamento.

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