Qué Mel, Kemmel, Kuemel, Quênio, Kêmio, Kenel, Quemuel…

Vou codificar para você no Alfabeto Zulu. Ele é usado na aeronáutica brasileira. Escreve aê:

Quebec União Eco Mike Eco Lima

QUEMEL. Soletra aê, por favor!

Em morse (código usado pela Marinha): –.- ..- — . — . .-.. Fácil, não!

O mais difícil é con(vencer) os operadores de call center a escreverem meu nome correto. Certa vez passei raiva com um atendente, cujo nome lembrava aquele ser mitológico que teve as asas derretidas por voar próximo ao Sol.

Meu martírio começou às 12h25 (tudo devidamente gravado e documentado) pelo protocolo nº 92383073. O sr. “voador” é um dos milhares de brasileiros que adentram as portas do mercado de trabalho por intermédio do 1º emprego em Help Desk. Na mitologia tenta fugir da ilha de Creta (precarização do trabalho), mas é convencido a acreditar que ao sair não conseguirá coisa melhor.

Obrigados a trabalharem em condições adversas e com scripts pré-programados, são os infoproletários modernos. O caso mais assombroso aconteceu nas plagas do pequi. Lá, o Ministério Público do Trabalho aplicou uma multa de R$ 1 milhão à empresa que proibia os opera dores (desculpe-me pelo trocadilho infâme) de irem ao banheiro. Resultado: nas seis horas que ficavam sentando, os atendendes faziam xixi nas calças e saias, respectivamente.

Para não perderem o emprego (e salário miserável de R$ 628) muitas atendentes resolveram de forma inusitada o problema: usavam fraldas geriátricas. Foi quando a Procuradoria Regional do Trabalho da 18ª Região resolveu acabar com a farra. Fique Atento com esse tipo de trabalho!

Às 12h40 o operador mitológico descobriu o porquê do meu acesso negado a banda larga: o nick cadastrado era “kemel”, mas eu repeti:

Quebec União Eco Mike Eco Lima

QUEMEL. Soletra aê, por favor!

O resultado do diálogo foi surpreendente: o ser mitológico quis me con(vencer) que não haveria problema algum e ter um nick “kemel”, para ele, um mero detalhe técnico, pois o que importava era a autenticação “kemel@terra.com.br”.

Não acreditei no que estava ouvindo (e gravando), mas continuei dando a corda para o enforcamento. Tudo isso com a conivência do supervisor que ouvia tudo calado e ainda ratificava as sandices do operador.

O resultado? Às 16h fui ouvir outras gravações do provedor UOL. Lá, pelos menos o atendente escreveu certo:

Quebec União Eco Mike Eco Lima

QUEMEL. Soletra aê, por favor!

Éder fez um golaço. Conseguiu cadastrar meu nick/login logo na 1ª vez. O operador do UOL fez igual ao jogador de mesmo nome, cujos chutes na copa de 1982 ficaram conhecidos como canhões ou “Patada Atômica”. Eder, o outro, espancou o fantasma do “analfabestismo” digital.

Quanto ao outro operador, tive que cortar as “asas” do sem-noção. Pensava ele poder voar sem limites. Como na mitologia, se tivesse escutado os conselhos do pai (Dédalo) não teria se esborrachado num embate com um consumidor cidadão. Na lenda se esborrachou com o Sol.

Iberê Camargo, o artista brasileiro de renome internacional constumava dizer: “O brasileiro tem alma de escravo. Aquele que luta pelos seus direitos no Brasil é considerado um criador de caso”. Eu sou um deles.

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