Analfabeto graduado

* Por Luis Sucupira

Está cada vez mais difícil contratar pessoas para vagas disponíveis no mercado. O maior problema não é a qualificação. Ela até que existe, mas o maior problema mesmo e o mais grave de todos é o analfabetismo dos alfabetizados. Explico: O Houaiss destaca que analfabeto é também “aquele que é muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil”. Infelizmente é cada vez maior a quantidade de pessoas que não sabem escrever corretamente, não sabem entender e pior, não conseguem formar uma ideia compreensível daquilo que expressam. O problema é grave e há muitos culpados.

O Paulo Couto e outros colunistas do Fórum PCs puxam uma campanha há alguns anos com o tema – “Eu sei escrever…”. Tal tema ainda desperta muito interesse a ponto de comumente sermos convidados a participar de programas de entrevistas para tratar do tema.

A mesma opinião dos colunistas do Fórum PCs é compartilhada por vários headhunters, empresas de seleção e departamentos de RH. O problema está gerando um fato que muitos estão chamando de ‘analfabetos graduados’. Ultimamente há muito mais vagas do que profissionais capacitados a ocupá-las. São pessoas com qualificação técnica, com extensos currículos e muitos diplomas, mas com pouco conhecimento teórico e prático e sem as atitudes adequadas de um profissional. A maioria é de gente muito nova e alguns chegam a ser arrogantes, pois com esse perfil pouco valem no mercado, mas se acham ‘o máximo’. Vários não possuem sequer a mínima etiqueta empresarial ou corporativa, sua vida pessoal é completamente desorganizada e parecem desconhecer fundamentos da ética e do respeito. Segundo Paulo Ricardo Mubarack a falta de fibra é outra marca registrada deste extenso grupo de incapacitados para o trabalho e isso está se transformando no maior apagão de mão-de-obra que este país já teve.

Paulo Ricardo Mubarack (Consulting & Business School) concorda que o problema é “grave” e muitos empresários e executivos de RH já o perceberam há muito tempo. “Estamos diante de um grande grupo de “novos analfabetos”. Mal sabem escrever ou ler, mal sabem falar ou ouvir. Não tem qualquer curiosidade científica, não leem livros, não assinam publicações técnicas, não consultam dicionários, não estudam, não treinam.” Sentencia Mubarak. Nos treinamentos que ministrava para equipes de vendas era comum ouvir representantes comerciais admitirem que “nunca participaram de um treinamento em vendas”.

A ortografia e o português estão no corredor da morte, sentenciados que foram ao ostracismo pela falta de uso e mais ainda pelo mau uso dele. Tais ditos ‘profissionais’ não revisam a ortografia do que escrevem no Word, mesmo tendo um corretor automático. É comum lermos palavras grafadas erroneamente. Um exemplo é uma frase comum em entrevistas a candidatos para vagas de vendedores ou consultores em TI – eles escrevem “atender as suas ESPECTATIVAS do cliente” e dizer que está “ANCIOSO” para conseguir a vaga.

Gerentes de vendas e gestores de pessoas não conhecem os indicadores de desempenho mais básicos para suas áreas e sequer os procuram nem mesmo no Google. Além de tudo não leem os textos corretamente e muito menos totalmente e no meio da missiva o abandona e sai acreditando que possui opinião formada sobre tudo. Ledo engano. Apesar de lerem muitas notícias rápidas nas manchetes da Internet (principalmente twitters) não conseguem assimilar o contexto de causa e repercussões.

Os novos analfabetos graduados, na sua costumeira arrogância, apresentam uma pose de importância absoluta, inabalável, indefectível e sempre reclamam da mesma coisa: “ – que ganham muito pouco…” Mal sabem eles que ainda possuem uma grande desvantagem sobre os analfabetos clássicos. Enquanto os clássicos realmente não sabem ler e nem escrever e assumem isso; os analfabetos graduados não sabem que são analfabetos. Mubarak destaca com bastante propriedade, citando os gregos, para consolidar essa tal dupla ignorância: “eu não sei que não sei!” Como disse Mario Quintana “o pior analfabeto: o que sabe ler, mas não lê”.

Relatório do PNLL – Plano Nacional do Livro e Leitura acrescenta um fato importante ao citar que no Brasil, mais de 11% de nossa população olham para um livro e não conseguem ver nenhuma aventura, nenhum grande personagem se definindo, nem se aproximar de uma reflexão instigante… Ele é apenas uma máquina estranha repleta de códigos indecifráveis, parada, sem vida alguma. Não conseguem ver porque mesmo a máquina mais simples exige-lhes um básico domínio do alfabeto que uma boa parte do nosso povo mais pobre ainda não possui. No Brasil a leitura per capita equivale a 1,8 livros lidos por ano – sem comentários.

Segundo Paulo Couto, Editor-Chefe do Fórum PCs a campanha ‘Eu Sei Escrever’ foi uma cruzada que começou atacando o ‘internetês’, “não porque era um idioma de ‘moda’ ou ‘da internet’, mas porque segrega uma vez mais aquele que não conhece seu significado.” Paulo Couto destaca que “tempos atrás convivemos com o grave problema da discriminação digital (a turma do ‘sem computador’), que é consequência da discriminação social e financeira existente nesse país, e vem o ‘internetês’ agora para segregar entre os ‘digitalizados’ àqueles que não utilizam a linhagem rápida dos torpedos e MSN.” Ressalta o Editor.

Aqui mesmo no Fórum PCs tem gente que critica os textos do Piropo sem nem mesmo ler, dizem que “só leio o inicio e o fim”. Várias vezes, eu, Paulo, Piropo, Xandó, Elis (a guisa de exemplo) fomos criticados por alguns usuários que discordaram de uma opinião que não foi expressada, direta ou indiretamente, no texto. Isso aconteceu simplesmente porque “eles entenderam dessa forma”. Várias vezes recebemos e-mails duros de gente dizendo que discorda de nós, e dá a sua opinião, a qual na realidade é EXATAMENTE A NOSSA, ou seja, entendeu tudo o contrário. Isso já aconteceu com todos os colunistas do Forum PCs. Paulo lembra que recebe e-mails ou mensagens “tão confusas que não dá pra entender se o sujeito está afirmando ou perguntando, concordando ou discordando, com algo que eu escrevi.” Destaca Couto.

Nas nossas conversas, entre os colunistas, notamos também uma ansiedade exagerada nas pessoas, como se todos vivessem em um ritmo muito mais acelerado do que o normal, de forma que as interrupções nas conversas se tornaram frequentes, e a falta de raciocínio na hora de expor um tema marca a maioria das discussões. Há um filme do Denzel Washington chamado ‘The Great Debaters’ que mostra que o debate era tratado como uma disciplina acadêmica, com professor, aula, exercícios e competições. “Situações como as propostas nesse filme”, destaca Paulo Couto, “ou no ‘Sociedade dos poetas mortos’ são completamente estranhas para o pessoal de hoje. É necessário massagear mais o cérebro e exercitar o pensamento e a argumentação.” Conclui.

Para reforçar a tese esta semana a Ediouro, enviou mensagem ‘mandando’ que os livreiros destruíssem milhares de títulos de livros que não estão tendo “boa saída”. Entre os condenados à morte estavam Mário Quintana, Tolstói, Ferreira Gullar, Shakespeare, Nélson Rodrigues. Diante do protesto dos livreiros, a editora suspendeu a ordem e está negociando descontos para que sejam comprados por preço mais baixos e vendidos em promoção. Para quem não sabe, as editoras gozam de uma série de imunidades tributárias que representam um subsídio justo à publicação de livros, inclusive para estes livros que mandou destruir. Em um país carente de cultura, educação e de boa leitura tais livros deveriam ser doados às escolas, bibliotecas, centros sociais públicos e não à fogueira como destino proposto pela Ediouro.

No rumo que está tomando a sociedade atual, em breve um filme deverá virar profecia realizada. Ele se chama “Idiocracy” – 2006 que mostra o futuro baseado na extrapolação do presente. No filme os mais inteligentes e conscientes evitam ter filhos ou mais de dois filhos. Assim eles são rapidamente superados pelos idiotas que procriam com mais velocidade. Os filhos dos idiotas elegem representantes parecidos com eles, e em algumas gerações a ‘elite pensante’ se torna uma minoria pouco influente. Nesse cenário futuro (possível?), o presidente americano é um ‘rapper’ e ninguém consegue resolver o problema das lavouras que pararam de germinar, pois, pasmem, que foram irrigadas por anos a fio com ‘Gatorade’ simplesmente porque a propaganda dizia que era “melhor do que água”.

A sociedade atual está manipulada de tal forma que nos transformamos em meros consumidores e pagadores de impostos. Consumimos qualquer porcaria que é oferecida, até mesmo educação de baixa qualidade, produtos ‘xing-lings’, programas de TVs absolutamente ridículos e a pior delas – as promessas de políticos.

O ‘internetês’ é apenas um dialeto dentre os muitos falados no Brasil, (tente entender o ‘mineirês’, o ‘pernambuquês’, o ‘paraibês’, o ‘paulistês’, ‘carioquês’, o ‘gauchês’ e decifre, se puder, a Conspiração Cearense para Dominar o Mundo) mas mesmo utilizando uma linguagem abreviada para se comunicar via Web através do MSN ou SMS, não será essa a justificativa para assassinar o nosso português. Se bobear, em breve, essa falta de compreensão, leitura e conhecimento do idioma pátrio irá gerar a seguinte conversa entre um entrevistador e um ‘analfabeto graduado’ (sim, por que quase todo mundo, hoje em dia, tem pós-graduação): O entrevistador perguntará ao candidato se ele fala bem português. Ele diz que sim e falará: “- português”!

A cruzada continua…

* Luis Sucupira é jornalista.

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4 respostas para Analfabeto graduado

  1. Hikari disse:

    Critica erros de grafia, e coloca um ‘àqueles’ craseado errado. Parabéns 🙂

  2. Fabio disse:

    excelente texto, mas…

    “Vários não possuem sequer a mínima etiqueta empresarial ou corporativa, sua vida pessoal é completamente desorganizada e parecem desconhecer fundamentos da ética e do respeito.”

    eu contesto! hehehehe….

    o quê o empregador, a empresa, o selecionador ou adjacentes têm a ver com a vida PESSOAL do sujeito?

    e se a pessoa for zelosa na vida profissional mas relapsa na vida pessoal? por quê achar que ele tende a relaxar no campo de trabalho?

    enfim, sei que a tendência do mercado nos dias de hoje é selecionar pessoas muito mais por perfil de pessoa do que por atributos laborais… mas eu entendo que normalmente as pessoas tendem a ser mais formais e diplomáticas no ambiente profissional e isto as impede de, por exemplo, bagunçar o ambiente.

    mas, cada caso é um caso.

  3. Fernando disse:

    De fato esse texto reflete a realidade da ignorância brasileira. Basta navegar na internet para encontra-la, inclusive na seção de comentários de blogs ou sites.

  4. Breno disse:

    Texto excelente! Infelizmente existem poucos locais na web com um conteúdo de tamanha qualidade.

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