O mercado de tecnologia e a responsabilidade social

Por Luiz Henrique Quemel *

Enquanto siglas como gestão de recursos empresariais (ERP), gerenciamento das relações com os clientes (CRM), gestão do conhecimento (KM) e tantas outras fazem a alegria do mercado de informática e das consultorias, uma nova e desconhecida começa a tirar o sono dos infoempresários brasileiros: é a SA 8000.

Criada no final de 1997 pelo Council on Economic Priorities Accreditation Agency (Cepa) (www.cepaa.org) e por um grupo de influentes empresas globais, além de grupos sindicais, de direitos humanos e consultorias internacionais, a SA 8000 poderia ser traduzida como uma espécie de “prestação de contas social”. O mercado de informática brasileiro que parecia aliviado em estar conquistando competitividade global com várias empresas certificadas com a série ISO 9000 agora vive a angústia de buscar mais esse desafio se quiser sobreviver ao processo irreversível da mundialização da economia e ganhar respeitabilidade.

A certificação SA 8000 busca o foco na qualidade de vida tanto de quem consome quanto de quem produz bens e serviços certificados pela sua irmã, a ISO 9000. Não basta agora somente visar o lucro, mas estender o benefício à comunidade, contribuindo para amenizar a ausência de oportunidades para todos.

Ainda estamos longe de praticar a verdadeira responsabilidade social e o que temos observado é um jogo acirrado de interesses individuais e corporativos tornando cada vez mais distante o tão propagado sonho em que a tecnologia seria a grande promessa de minimizar as desigualdades sociais. Duvida?

Basta observar as discussões acaloradas em torno da Lei 8.248, que tem sua extinção prevista para outubro. De um lado, o Estado brasileiro com sua fome avassaladora por mais impostos, e que não faz sequer o dever de casa com a reforma tributária, e, de outro, os interesses corporativos, justos por sinal, mas com concepções arcaicas de desenvolvimento econômico.

O Estado insiste em ampliar ainda mais o custo Brasil transferindo o déficit fiscal para o setor produtivo de hardware, sem oferecer a contrapartida para o desenvolvimento do setor de software no País. Concordamos que isenção total não deve existir, pois seremos nós a pagar essa salgada conta, mas deve-se avançar na discussão de conceitos alternativos como o de capital de risco para equilibrar melhor a questão.

O mercado justifica-se dizendo que, sem a prorrogação da atual Lei de Informática, indústrias poderão se deslocar para o Mercosul, onde as condições seriam mais favoráveis. Isso cheira a terrorismo, pois não aceitam negociar outras alternativas que contemplem o consenso para resolver o impasse.

Não percebem que, se continuarem apenas olhando para seus interesses (corporativos e governamentais), poderão até ficar sem os dois principais atores: contribuintes e consumidores. Esse será o futuro caso não invistam para o crescimento, fortalecimento e perpetuação desses segmentos. Que o diga a grande depressão de 1929, na qual houve um excesso de produção sem o poder aquisitivo suficiente para haver a circulação de capitais e equilíbrio do sistema.

Algumas iniciativas, embora tímidas, representam um passo importante vindas de um setor que, segundo a revista Info, foi o que mais faturou no ano passado, apesar da crise provocada pela variação cambial. A Embratel promete destinar até 2004 R$ 12 milhões a crianças carentes; a Zip.net doou 5 mil acessos a escolas paulistas; a Microsoft US$ 4 milhões em softwares ao Comitê para a Democratização da Informática (CDI); a Xerox, com seu projeto nas favelas do Rio de Janeiro, tem investido na sobrevivência de seu mercado, contribuindo na formação de futuros consumidores (os jovens carentes). É preciso mais! Ampliar o conceito de responsabilidade social ao de cidadania não só com recursos materiais, mas, principalmente, cedendo seu valioso capital intelectual para sustentar os programas sociais nas fases iniciais.

Atitudes isoladas como essas precisam ser seguidas, guardadas as devidas proporções é claro, por todas as empresas de informática e telecomunicações. Certamente, aparecerão empresas de fachada que usarão o conceito de responsabilidade social apenas para conquistar mercado, tornando a SA 8000 apenas uma marquetização da ética. A punição, quando descoberta, virá a galope do próprio mercado. É só lembrar o que aconteceu com a Nike, que usava mão-de-obra infantil e escrava no sudeste asiático. Suas ações despencaram e até hoje nem o craque Ronaldinho conseguiu elevar a imagem da empresa.

Em junho, foi realizada em São Paulo a 2ª Conferência de Responsabilidade Social Empresarial nas Américas e, à exceção da Xerox, não foi visto nos significativos números do evento qualquer empresa de informática. Na abertura do evento, o presidente da Business Social Responsability, Robert Dunn, provocou o público com uma interessante reflexão. Se a população mundial fosse reduzida a uma vila de cem pessoas, essa seria a composição:

– 8 seriam da América Latina e 5 da América do Norte;
– 80 viveriam em subcondições de moradia;
– 66 não teriam água potável;
– 50 sofreriam de desnutrição;
– 6 deteriam metade da riqueza;
– 1 teria curso superior;
– ninguém teria computador.

É preciso analisar esses números e constatar que mais tecnologia não será suficiente se não fizermos uma mudança radical em nossa cibercultura, na qual o conceito de desenvolvimento só reside no econômico, não abrangendo também o social. Aqui fica o desafio para imaginar como será o Brasil caso nada seja feito para reverter o fosso social causado pelo equivocado curso, mas irreversível caminho, da tecnologia da informação, em que talvez nem a vila exista mais, sendo destruída para dar lugar a uma importante fábrica de hardware subsidiada com nossos generosos impostos e sequer empregando brasileiros.

* Publicado em 29 de setembro de 1999 no jornal O Popular (Goiânia-GO)

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2 respostas para O mercado de tecnologia e a responsabilidade social

  1. Caro Claudio, salve!

    http://www.sa-intl.org

    Bração e boa $orte,
    Quemel

  2. Caro Quemel,

    Gostaria de saber onde obter informações confiáveis sobre os requisitos e normas relacionadas à certificação SA8000.

    Só lembrando que, além das já conhecidas ISO 900x, 1000x, não podemos deixar de lado as importantíssimas ISOs 207001 e 207002, que se complementam.

    $orte e $ucesso.

    Claudio R. E. Boaventura

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