Livro – O artífice

Por Fabio Silvestre Cardoso

Dez mil horas. Para alguns, um tempo que não há como ser mensurado. Para outros, um período necessário para se tornar especialista em determinada área. A esse último grupo pertence o pensador Richard Sennett, autor de O artífice, que ora chega às livrarias do país. Trata-se de um alentado estudo sobre a expertise no mundo do trabalho, que, embora vilipendiado no atual estágio da globalização pós- crise econômica, encontra abrigo e observação acurada na obra de Sennett, professor da London School of Economics e também autor de outros livros sobre o universo do trabalho e suas transformações no comportamento da sociedade (entre outros, A cultura do novo capitalismo e A corrosão do caráter).

Em O artífice, a propósito, o escritor apresenta um tema de estudo bastante original, mas preserva, para o bem ou para o mal, modelos semelhantes de análise e perspectiva acerca desse fenômeno. No livro, o que se lê é que as virtudes da obra superam um eventual ranço ideológico que permeia o pensamento do autor.

Antes, porém, é necessário resgatar o tema central do livro. Ao que parece preocupado com o status quo do mundo da chamada ‘cultura material’, Sennett anuncia já no prólogo o objetivo de sua obra, a saber: discutir, em três livros, a técnica como questão cultural. Neste primeiro, dedicado ao que ele próprio define como artífice, o autor toma emprestado alguns conceitos de Raymond Williams em Palavra-chave, outro livro relevante lançado apenas recentemente por aqui.

E aqui, aliás, está uma das senhas que ajudam a compreender o livro. Pois ao contrário do que uma leitura ligeira e simplória pode sugerir, Sennett não faz um libelo acerca do trabalho dos artesãos e dos trabalhadores manuais que perderam seus empregos nas revoluções industriais – argumentos já mastigados, que tão bem servem às teses de certa intelligentsia de esquerda. Em vez disso, o sociólogo prefere estabelecer um coeso vínculo entre o fazer e o pensar, articulando, assim, a relação que existe entre a mão e a mente no ato de produzir.

Produzir o quê? Sennett salienta que essa produção não se restringe apenas ao carpinteiro cercado por cadeiras e madeiras em sua oficina; ou, ainda, à imagem daquele maestro perfeccionista, atento até mesmo à velocidade com que tomam seus arcos para executar a peça no mesmo compasso.

O trabalho do artífice, na visão de Sennett, também está presente na criação de um sofisticado software de computadores que exige a colaboração e contribuição devota de seus usuários. E, surpresa, o leitor descobre que o intelectual das humanidades consegue entender o Linux, sistema operacional ainda considerado apenas como alternativo para algumas camadas de usuários de computador, como um perfeito exemplo de trabalho produzido à maneira dos artífices.

‘As corporações que tiveram êxito graças à cooperação compartilhavam com a comunidade Linux essa característica experimental da habilidade artesanal tecnológica, a íntima e fluida conexão entre a solução de problemas e a detecção de problemas. No contexto da competição, em contraste, são necessários padrões claros de realização e conclusão de um trabalho para avaliar o desempenho e distribuir recompensas’, assinala o autor, indicando que o trabalho do artífice está presente na sociedade contemporânea, ainda que a concorrência desleal do chamado mundo corporativo defenda uma forma de execução tecnicista, pragmática e desprovida do saber conceitual.

Ao demonstrar de que maneira o trabalho do artífice como ideia é superior àquele da divisão social (que, como abordado em outro livro do autor, ‘corrói o caráter’), Sennett explica como essa prática molda o trabalhador, uma vez que a busca não é calcada, ou tampouco validada, por resultados imediatos, mas, sim, pelo prazer que esse exercício proporciona a quem o faz. Em outras palavras, é como se o artífice realizasse seu trabalho a fim de ter, como ‘retorno de investimento’, tempo para reflexão e imaginação de seu labor – algo que definitivamente está fora da grande parte das matrizes curriculares dos MBAs e demais cursos de administração das universidades brasileiras.

Ao identificar essa espécie de ‘ethos da qualidade’, uma distinção que está fora de questão na hora de se pesquisar quais são as 10 melhores empresas para se trabalhar, o autor não refuta suas origens mais à esquerda e aproveita para acusar a falta de ética no capitalismo global, crítica recorrente em seus livros e ensaios.

O livro, no entanto, não faz uma defesa desse ou daquele regime. Antes, ressalta a importância que o trabalho tem já na sua elaboração mais primitiva, detalhe a um só tempo tão relevante e tão esquecido. Afora isso, Richard Sennett expõe seus argumentos em uma prosa bastante elegante, recorrendo à imaginação de um escritor de talento ao utilizar teses sofisticadas da academia. E este é mais um detalhe interessante da obra: como autor, Richard Sennett se mostra um cultor da boa prosa, um verdadeiro artífice da palavra.

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