[O Crepúsculo do Dragão] Pulsação Narrativa!

Era oito do oito de 2008. Jorge Arthur Mohammed sentiu um cansaço e tremedeira nas mãos. À medida que as afastava do teclado, mais tremia e a vista embaçava.

Foi parar na emergência do Hospital das Forças Armadas (HFA). Fez a ficha e aguardou a vez de ser atendido. A porta do consultório se abriu e um senhor de barbas brancas e olhos azuis convidou-o a entrar. Por que a gente sempre tem a impressão que já conhece as pessoas?

O médico questionou os motivos da visita. O agente da Unidade de Crimes Tecnológicos (Technology Crime Unit – TCU) falou sobre as câimbras, sede em excesso e incontinência urinária. O médico pegou o esfigmomanómetro e disse:

– Há muita pressão. Isso é Pulsação Narrativa. Você precisa escrever meu filho!

– Pulsa… o quê? Gaguejou, atropelando as palavras. Ele devia estar brincando, pensou.

E estava mesmo. Sorriu, pegou o polegar direito de Jorge Arthur e espetou uma espécie de caneta com agulhas. O sangue apareceu de forma tímida. Foi o suficiente para inseri-lo num pequeno equipamento digital.

– E além disso, está com a glicose muito alta, diagnosticou o médico.

Sentou-se e começou a rabiscar. Parecia estar prescrevendo uma receita ou um atestado médico. Entregou os dois papeis e o profissional dos bytes sem enxergar muito bem devido à cirurgia nos olhos (lasik) recente, pegou e saiu.

Entrou na farmácia para aviar as duas receitas. A moça olhou e devolveu uma. Disse que não vendia ali. Notou um olhar meio desconfiado, como a esconder uma risada incontida. Jorge Arthur guardou a caixa de Cloridato de Metformina (genérico para Glifage XR500) e se dirigiu a outra farmácia.

Entregou a outra receita, muito maior e com mais itens. A moça riu e disse-lhe:

– Senhor, não vendemos livros aqui!

Retornou para casa e com uma lupa de grande ampliação leu:

BLOOM, Harold, Como e Por Que Ler, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001

CARRERO, Raimundo, Os segredos da ficção – Um guia da arte de escrever narrativas, Agir, Rio de Janeiro, 2005.

GOLDBERG, Natalie, Escrevendo com a Alma – Liberte o escritor que há em você, Martins Fontes, São Paulo, 2008

GOTLIB, Nádia Battella, Teoria do conto – Série Princípios, Editora Ática, 11ª edição, São Paulo, 2006

INOUE, Ryoky, Vencendo o desafio de escrever um romance, Summus Editorial, São Paulo, 2007

KIEFER, Charles, Para ser escritor, Editora LeYa, São Paulo, 2010.

KOCH, Stephen, Oficina de Escritores – Um Manual Para a Arte da Ficção, Martins Fontes, São Paulo, 2008

NIZO, Renata DI, Escrita criativa – O prazer da linguagem, Summus Editorial, São Paulo, 2008.

OLIVEIRA, Nelson de, A Oficina do Escritor – Sobre ler, escrever e publicar, Ateliê Editorial, São Paulo, 2008.

PROSE, Francine, Para ler como um escritor – Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2006.

RIVADENEIRA, Como escrever um livro – 100 perguntas e respostas, Ediouro, São Paulo, 2008.

ROY, Camilien, A arte de recusar um original, Editora Rocco, São Paulo, 2007.

SÁ, Sérgio de, A reinvenção do escritor, Coleção Humanidades, Editora UFMG, Belo Horizonte, 2010.

Retornou ao hospital para saber que tipo de brincadeira era aquela. Como um médico poderia ter feito isso. Quis saber quem era o facultativo. Solicitou os registros, mas para sua surpresa não havia nesse dia e horário nenhum endócrino de plantão.

Quando ia saindo, uma enfermeira que havia escutado toda a história, interviu:

– Você foi atendido pelo Dr. Bezerra de Menezes!

– Quem? Quando ele estará novamente aqui? Onde fica sua clínica? Qual o seu CRM?

– Espere aqui um minuto (tinha um sotaque alemão) que vou procurá-lo, disse a enfermeira que mais parecia uma freira. Em seu crachá podia-se ler: Irmã Scheilla.

ManoJAM (nome de código no mundo hacker) como era conhecido Jorge Arthur pelos médicos, esperou até às 18h. Hora do Ângelus. Ela não voltou…

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Uma resposta para [O Crepúsculo do Dragão] Pulsação Narrativa!

  1. Valdi Cravei Bezerra. disse:

    Gostei muito de seu conto, mais ainda da prescrição de leitura. Pena que quase todos estão esgotados.
    Depois de velho decidi aprender a ler e se possível expressar em palavras essa confusão vivencial, que só percebi ser assim, quando resolvi contar sobre um dia na vida.
    Obrigado pelas referências.
    Um grandeabraço.

    Valdi Cravei Bezerra.

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